quarta-feira, 2 de julho de 2008

Cerco(m)navegando


Do prefácio de João Pedro Mésseder:
"Ainda hoje me parece inacreditável que este pequeno grande livro (grande em formato, pequeno em número de palavras) tenha suscitado tantos entusiasmos, tantas apetências de expressão, tantos modos de cada um, nesse alargado projecto, inscrever o seu pequeno projecto de trabalho. Que pode ser, tão só, escutar ou ler a história (penso nas meninas e meninos da pré-escolaridade e do 1º ciclo), discuti-la, dramatizá-la ou teatralizá-la, ilustrá-la ou recriar as ilustrações do Gémeo Luís (Prémio Nacional de Ilustração em 2007), construir manualmente máscaras, fatos, converter o texto narrativo em letra de canção e interpretá-la, e dançá-la e rir com ela… Mas também recordo, com um enorme sorriso, o momento em que vi e ouvi os mais velhos (do secundário) realizar uma bem-humorada leitura encenada de outra versão de O Aquário que escrevi em verso. E como esquecer as jovens do Curso Profissional de Animação Sociocultural (10º ano), sempre tão disponíveis e divertidas, que coreografaram e cantaram e dançaram, para todos, as diversas cantigas inspiradas no livro? E como esquecer os do 2º ciclo e do 3º que encontraram maneiras tão criativas, e tão à sua escala, de se envolver neste projecto. E como esquecer os meninos do pré-escolar e do 1º ciclo que – pela mão experiente de educadoras e professoras tão devotadas às causas do ensino e da leitura – me surpreenderam, em todas as escolas que visitei ou no Centro Cultural de Campanhã, com leituras, coreografias, danças, cantigas, conversas a partir de O Aquário e de outros livros meus? E como não recordar as imagens e sons dos blogues das escolas que, num frenesim sem paralelo, iam dando conta do evoluir do projecto?
Tudo isto vem provar que um percurso deste tipo faz ruir muros, esbate fronteiras, esvazia ideias feitas, permite trabalhar com seriedade em favor de uma escola inclusiva e, sobretudo, de uma sociedade inclusiva. A que fronteiras me refiro? Às que, por vezes, se erguem entre professores e alunos de diferentes ciclos, entre professores e auxiliares de acção educativa, entre famílias e escolas, entre centro urbano e periferia, entre trabalho intelectual e manual – porque o que não falta, neste "aquário" em que vivemos, são muros e fronteiras.
Um projecto como este enfatiza o valor e o prazer de ler, estimula tarefas com sentido e logra associar esse trabalho à festa, uma vez palmilhado o caminho necessário.
E vem provar outra coisa: que um livro infantil pode e deve suscitar a atenção de todos. Pois todos – adultos, jovens, crianças – podem nele encontrar motivo para meditação, e, principalmente, um trampolim para o exercício das suas aptidões ou para construir o seu pequeno projecto: seja ele de leitura, de escrita, de expressão plástica, musical ou dramática, seja ainda (estou a pensar nos mais velhos e nos professores) um projecto de animação da leitura, de ensino e aprendizagem, de enriquecimento pessoal ou de simples entretenimento.
Este projecto, não sei bem porquê (ou sei?), traz-me à lembrança aquela tão querida canção de José Afonso, "Os Índios da Meia-Praia", com a qual termino: "Eram mulheres e crianças / cada um com seu tijolo. / Isto aqui era uma orquestra, / quem diz o contrário é tolo."
Recordam-se desta canção? E do tempo dela? Eu lembro-me muito bem. E trazê-la para aqui é a minha modesta forma de dizer obrigado e de falar também do privilégio, da comoção que foi participar, à minha maneira, neste projecto feliz e estimável. Um projecto que confirma uma verdade: ainda vale a pena ser educador, e vale sempre a pena ser aluno. Pois a Escola, se todos quisermos, continuará a ser um espaço de liberdade, de criação, de alegria, de trabalho colectivo e de exigência. Para connosco mesmos e para com os outros. "
João Pedro Mésseder